Friday, 27 January 2006

Notas soltas

Eu sentia que este rapaz, o Carlos Ruiz Zafón, da Sombra do Vento, era um baril. Pois se até mete ensaimadas! Ora vejamos:

(p165):
«Fermin deixou os bolos em cima da mesa e ofereceu-me uma ensaimada acabada de fazer. Declinei a oferta, não seria capaz de engolir nem uma aspirina».

É bom de ver que o rapaz não comeu porque passou por um mau bocado, se não seria impossível resistir.
Mas há mais, sobretudo conselhos sobre relações:

sobre a coscuvilhice (p.111):
«As pessoas para abrir o bico estão sempre prontas. O homem não vem do macaco, vem da galinha»

sobre as mulheres (p.117):
«Recordo-lhe que está a falar com um profissional da sedução e isso do beijo é para amadores e diletantes de pantufa. A mulher de verdade conquista-se pouco a pouco. É tudo uma questão de psicologia, como uma faena na praça. (...) O que acontece é que o homem aquece como uma lâmpada: ao rubro num ápice e frio outra vez num ai. A fêmea, porém, aquece como um ferro de engomar, está a perceber? Pouco a pouco, a fogo quente, mas quando aquece não há quem pare aquilo.
(...)
«Sou pragmático. A poesia mente, embora em bonito, e o que eu digo é mais verdade que pão com tomate. Já lá dizia um mestre: mostre-me um don Juan e eu mostro-lhe um mariconço disfarçado»
(p119): «Eu de miudas sei uma coisas. Digo isto porque, se um dia tiver qualquer consulta técnica a fazer, já sabe. Com toda a confiança, que eu para isso sou como um médico. Sem parvoeiras».

sobre uma velhota: (p138):
«As vizinhas têm-na dopada à base de baldes de brandy e quando a vi tinha caído inerme em torpor no sofá, onde ressonava como um varrasco e expelia umas bufas que perfuravam a tapeçaria».

11 comments:

O Acordeonista said...

A terceira citação é do catano.

M. said...

:) Não tenho aqui o livro, mas também já sublinhei algumas partes, estas e outras. Volto, com livro, para partilhar :)

Pim said...

à espera...

innocent bystander said...

acordeonman: a das bufas? acabei de ler inda agora outra passagem sobre o controlo do esfincter. Este bacano tem jeito para a escatologia.

m.: bem-vinda. partilha, partilha!

pim: já passei do meio, tá quase!

O Acordeonista said...

Não catano, a citação sobre mulheres. Essa é que é do catano.

M. said...

Mais algumas: :)

"- Não sei muito de mulheres, para dizer a verdade.
- Saber, ninguém sabe, nem Freud nem elas próprias, mas isto é como a electricidade, não é preciso saber como funciona para apanhar um choque nos dedos." (p. 83)

"-A televisão, amigo Daniel, é o Anticristo, e digo-lhe que bastarão três ou quatro gerações para que as pessoas não saibam nem dar peidos por sua conta e o ser humano regresse às cavernas, à barbárie medieval e a estados de imbecilidade que a lesma já ultrapassou lá para o pleistoceno. Este mundo não morrerá de uma bomba atómica, como dizem os jornais, morrerá de riso, de banalidade, fazendo uma piada de tudo, e aliás uma piada sem graça." (p. 96)

"-O Daniel agora não percebe isso, porque é jovem. Mas com o tempo verá que o que conta às vezes não é o que se dá, mas sim o que se cede" (p. 159)

"- Isto da corte é como o tango: absurdo e pura fioritura. Mas o homem é o Daniel e a si lhe compete tomar a iniciativa.
Aquilo começa a adquirir um cariz funesto.
- A iniciativa? Eu?
- Que quer? Algum preço tinha de ter o poder mijar de pé.
(...)
- Olhe Daniel. As mulheres, com notáveis excepções como a sua vizinha Merceditas, são mais inteligentes do que nós, ou no mínimo mais sinceras consigo próprias sobre o que querem ou não. Outra coisa é que o digam a uma pessoa ou ao mundo. O Daniel está confrontado com o enigma da natureza. A fêmea, babel e labirinto. Se a deixa pensar, está perdido. Não se esqueça: coração quente, mente fria. O código do sedutor." (p. 163)

Há também uma expressão fabulosa na página 158: "aleijadinha de boa" :)

Também ainda não acabei, mas estou rendida à escrita do Carlos Ruiz Zafón e à personagem que emite estas leis fantásticas. ;)

Obrigada por partilhares à distância a leitura e as opiniões!

innocent bystander said...

M.: obrigada tu por partilhares! apreciei também o «Algum preço tinha de ter o poder mijar de pé.». este fermin é um génio.

acordeonman: desculpa a precipitação. essa das mulheres é do melhor que há. e abreviado, noto.

bonifaceo said...

Só é pena aparecer aí tanto um tal de Daniel... parece que estou a ler um texto dirigido a mim... :D.
Boni a desconversar... andam aí a ler um livro meio estranho... e já agora é um romance?

innocent bystander said...

é um romance, é. lê, é giro.

Rita said...

Esse Fermin é uma loucura. Há uma conversa com um taxista que é de ir às lágrimas. Não cito porque já li o livro há uns meses e não sei onde andará essa tal de conversa...

innocent bystander said...

é verdade rita, mas também já não me lembro bem. Metia política, tourada, o inferno ou tudo, já estou baralhada e o livro já não está comigo...